Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Poemas de Almada Negreiros...

No ''menu'' de hoje temos : 2 poemas de Almada Negreiros, uma imagem de um quadro (''Maternidade'') por ele pintado, um retrato dele e, last but not the least , um gajo qualquer a ler os poemas.

 

A SOMBRA SOU EU

 


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

 

 

 

Encontro

 

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

 

 



 

segredo revelado : Artista em diversas áreas de actividade (escrita, pintura, dramaturgia, poesia,...),José de Almada Negreiros nasceu a 7 de Abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu em 1970, em Lisboa. Foi um dos fundadores da revista “Orpheu” em 1915.

Um dos grandes nomes da cultura ''tuga''.

 

PS : Sim, o gajo que lê os poemas sou eu, não é o Vítor de Sousa , nem nenhum declamador famoso.

publicado por segredo_revelado às 17:26
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